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Sem perdão e sem culpa
As cenas mais tocantes nos filmes, novelas ou documentários, são aquelas que envolvem perdão. Filhos perdoando pais perversos , pais perdoando filhos ingratos, esposas traídas perdoando maridos e vice-versa, amigos, vítimas, enfim, uma lista extensa de situações em que alguem tinha sido abusado, agredido, rejeitado, enganado ou lesado. A capacidade de perdoar é essencial para as relações humanas mas, quando se torna uma obrigação moral ou colocada como condição para se alcançar paz interior , pode ser perniciosa e rígida . Do meu ponto de vista o perdão é uma questão da ética. Entretanto, como forte elemento da tradição judaico-cristã a sua imposição faz com que muitas pessoas sintam-se culpadas quando não querem perdoar, sendo consideradas más, rancorosas e vingativas.
Porém , a vingança é baseada na raiva e amargura , contendo sempre elementos de vitimização e sensação de injustiça que são usadas para justificar a ação de represália. A escolha de perdoar, ou não, vai muito além de uma vingança , exigindo um trabalho interno e doloroso . Perdoar não pode ser, simplesmente, uma resposta reflexa e automática, uma fala ou declaração .
Tem que vir do nosso interior quando a situação ficou clara e sentimos que é a atitude adequada para se resolver um assunto daquela natureza.

Ninguém tem o direito de ditar como resolver um caso de traição ou agressão pois, sòmente a própria pessoa envolvida vai ser capaz de decidir através da dor, da reflexão e da análise do prejuízo que sofreu. Infelizmente, muitos terapeutas, sacerdotes e conselheiros acreditam que o perdão é a única atitude correta e encorajam as passoas a tomá-las sem considerar que essa decisão pode, muitas vezes, acarretar prejuizos emocionais para o aconselhado. Temos que lembrar que acontecem situações em que o não perdoar deve ser considerado, tratando-se de atitude legítima e adequada para proteção do "self".

Lembro-me de uma jovem paciente que foi, durante anos, severamente abusada sexualmente por seu pai. Sua dor era acrescida pela conduta da mãe que se recusava a ouví-la e nunca fazia nada para evitar a continuação do abuso. A jovem cresceu tímida, revoltada e não confiava em ninguém. Os pais são as primeiras figuras que definem o mundo de uma criança. Se ela não se sente protegida ou validada como pessoa, torna-se um ser frágil e inseguro com uma visão extremamente negativa do meio ambiente. Essa jovem lutou durante anos com um conflito interno intenso sobre como se relacionar com seus pais. Depois de certo tempo encontrou uma paz enorme quando decidiu que não deveria perdoá-los e tentar viver bem com eles. Afastar-se e ter uma nova vida, escolhendo outros relacionamentos, ajudou-a a mudar sua percepção do mundo e encontrar a serenidade de que precisava.

Outro caso de minha experiência foi o de uma jovem cujo irmão mais velho, além de agredí-la fisicamente, de forma brutal e continuada, acabou lesando-a financeiramente quando receberam a herança dos pais, a ponto de deixá-la em situação de difícil subsistência. Este irmão continuava a procurá-la para encontros familiares, como se nada houvesse ocorrido, sugerindo que a união familiar deve estar sempre acima de dissidências, sobretudo as materiais. A moça custou a entender que estava se maltratando demais ao fingir que nada sério ocorrera e que deveria ter consideração pelo seu irmão, "sangue do seu sangue" (como sempre dizia sua mãe). Quando decidiu deixar claro para ele que não perdoaria as maldades que cometera contra ela, não teve mais depressão, melhorou do seu distúrbio alimentar e nunca mais quis saber das enrolações dele.

É muito comum nas famílias desarmoniosas , pais negarem que uma criança está sendo vitimizada e, exigirem que amadureça ao lidar com essa dor, alegando que ao superá-la vai se tornar mais forte e preparada para a vida. Nem sempre. Os consultórios estão repletos dessas crianças que se tornaram adultos emocionalmente lesados. Quando se reconhece a distinção entre ações que valem a pena serem toleradas ou não e se mantém o próprio ponto de vista moral sobre o que é certo ou errado, o indivíduo rejeita o papel masoquista que a família muitas vezes está lhe impondo. A insistência pela verdade e pela justiça que levam a não perdoar, vai se tornar a base do seu senso de "self" Penso que na nossa cultura tendemos a encarar o perdão como a melhor e mais saudável maneira de resolver um sentimento interno e perdoar é uma das grandes lições que temos que aprender na vida. Sem dúvida, é verdade mas, o oposto também pode ser verdadeiro. Aprender a não perdoar, depois de se ter feito isso compulsivamente, de forma imposta e sem pensar, é uma grande conquista.

A vida diária nos traz inúmeras circunstâncias que nos ofendem, agridem e vão se repetindo enquanto vamos aguentando, perdoando, esquecendo, confundindo maus tratos com atitudes normais. Às vêzes acontece até entre amigos. Um paciente meu era constantemente rejeitado pelo melhor amigo que sempre faltava aos compromissos combinados e, "esquecia " de convidá-lo quando estava com um outro grupo. A constante sensação de rejeição o tornava deprimido e diminuia a sua auto-estima. Custou a entender que essa pessoa absolutamente, não era seu amigo e que não lhe fazia nenhum bem tentar insistir nessa amizade. Muitas vezes é difícil perceber que o problema não está em si mesmo mas , no outro que é um grande sacana. Sair desse relacionamento afastando-se, sem necessidade de perdão, significou para esse paciente a conquista de sua auto-estima e valorização de si mesmo .

Perdoar e não perdoar não são posições extremas, podendo seguir juntas. Trata-se de um mesmo processo interno que dá margem a uma resolução emocional autêntica em qualquer uma das duas direções. As pessoas que passaram pelo processo consciente de perdoar ou não, emergem dessa experiência com mais auto conhecimento, melhoram seu relacionamento interpessoal e são menos assombradas pelo passado. Quando genuíno, perdoar é uma capacidade e não uma compulsão . Por isso, podemos decidir pelo sim ou pelo não, dependendo das circunstâncias. A habilidade para discriminar evidencia maturidade e liberdade.

Maria Clara S. Heise
Psicóloga Clínica - Psicoterapeuta
Rua General Mena Barreto , 498
Tel. 3887-0933 Jd Paulista .
Fotos:
 

  
 


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