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Para educadora, é preciso dar auto-confiança às crianças
Em abril passado, Emilia Ferreiro recebeu das mãos do presidente Fernando Henrique a mais alta condecoração do governo brasileiro na área da Educação: a comenda de Mérito Educativo no grau de Grande Oficial. Suas idéias estão presentes na concepção dos Parâmetros Curriculares Nacionais, implementados por todo o país, e também no Programa de Formação de Professores Alfabetizadores (Profa), que o MEC desenvolve hoje em cerca de 2.300 municípios. Psicolingüista argentina radicada no México, a pesquisadora Emilia Ferreiro tem dedicado sua vida profissional a compreender como as crianças constróem os conhecimentos necessários para se alfabetizar.
A que a senhora atribui essa aceitação brasileira, em tão larga escala, de suas idéias?
Uma das razões foi a surpreendente capacidade de compreensão de meus dados de pesquisa demonstrada por alguns pesquisadores e educadores brasileiros, que se puseram rapidamente a atuar - e com tanto vigor que tornaram possíveis esses programas que estão sendo implementados no Brasil. Trata-se de pessoas muito capazes, porque minhas idéias precisaram ser adaptadas, já que eu não fiz pesquisa em Português. A outra razão eram as cifras astronômicas (50%) que o país tinha de fracasso no final da 1.a série até cerca de 20 anos atrás. Nenhum país pode suportar isso. É como se metade de sua população fosse incapaz de aprender. Considerava-se que a responsabilidade por esse fracasso escolar estava fora da escola. Era atribuído à pobreza, ao analfabetismo dos pais, à dificuldade de muitas crianças de ter contato com a língua escrita desde bem pequenas. Para muitos educadores brasileiros, essa era uma situação inaceitável. Alguns viram nas novas idéias uma possibilidade de conciliar a luta pelo direito à alfabetização e à educação com uma maior compreensão do que acontece com a criança e do que a escola pode fazer.
Como é a criança que a senhora vê?
Até 25 anos atrás, a criança que aprendia a ler e a escrever compunha-se somente de olhos, um aparelho fonador que emitia sons, ouvidos e uma mão que traçava. O que interessava saber era como estava a coordenação entre o olho e a mão, entre o ouvido e o aparato fonador que produz ruídos - ou seja, um conjunto de coisas externas. Então, descobrimos que as crianças pensam - e têm o mau hábito de não pedir permissão para começar a aprender. Sempre pensaram, mas não conseguiam manifestar seus pensamentos, porque ninguém acreditava que pensassem e porque a prática escolar não permitia ver esse pensamento. As dificuldades hoje estão em levar o professor a aceitar que as crianças pensam sobre a escrita e que é sobre esse pensamento que ele deve atuar para ajudá-las a continuar construindo conhecimentos até chegar onde o adulto considera o correto. É preciso entender que entre o não saber e o saber há uma série de etapas, todas positivas. Na verdade, não há um momento de não saber, mas um momento de saber de um certo jeito, que se vai modificando. Quando leva isso em conta, a escola pode atuar de outra maneira. E levar isso em conta é considerar que na sala de aula há um conjunto de seres pensantes, que estão em um processo de alfabetização - um processo que começou antes de eles chegarem à escola e que não termina pela vida toda.
Suas idéias implicam, por parte do professor, uma mudança no olhar, na postura e na ação. Qual o percurso que ele teria de fazer para conseguir essa mudança? Basta querer?
Lamentavelmente, não. Em primeiro lugar - e como qualquer outro profissional -, o professor tem de assumir a necessidade de reciclar-se permanentemente. Ninguém pode considerar sua formação encerrada ao receber um diploma de uma escola superior. Na verdade, isso sempre foi assim. Só que hoje a reciclagem se vincula a um outro problema, que é a instabilidade no emprego. É preciso manter a capacidade de aprendizagem, porque é possível que se tenha de mudar de emprego. Portanto, é preciso desenvolver novas competências.
Por outro lado, a condição de querer mudar também é importante. As mudanças provocadas por modismos são superficiais e efêmeras, porque o sujeito não assume a responsabilidade da mudança. Mas é possível esperar uma ação mais consistente dos que mudam por insatisfação com sua prática. Se for honesto, ao ver que metade de sua classe não consegue aprender, o professor ficará insatisfeito, identificando aí uma prova de que, como profissional, não está funcionando bem.
Por que para os professores é tão difícil mudar?
Porque vão descobrir que não se trata de simplesmente trocar uma cartilha por outra, uma seqüência de atividades por outra, mas de uma mudança conceitual. Quando os professores mudam as idéias que tinham antes sobre a língua escrita, sobre a aprendizagem e sobre a própria criança, são obrigados a mudar também sua forma de intervenção na classe. É um processo muito difícil, porque no início eles sentem que, se não estão na frente da turma, escrevendo na lousa e lhe dando instruções para copiar, não estão ensinando. É preciso rediscutir o conceito de intervenção do professor, porque ele está intervindo o tempo todo, quando fala e quando decide silenciar para permitir que os alunos entendam o problema que lhes foi colocado e encontrem uma solução. Mas, mesmo sendo difícil, considero essa mudança muito necessária, sobretudo agora que os requisitos da alfabetização, no nível social, também estão mudando.
Quais os desafios da escola nesse milênio?
São muitos os desafios. Limitando-nos à área da alfabetização - essa alfabetização que continua pela vida toda -, o desafio é conseguir levá-la a bom termo, porque as crianças estão ávidas por aprender. O início da escolaridade é um momento totalmente mágico para as crianças, que se sentem mais adultas e se acreditam capazes de aprender - já que vêm aprendendo ao longo de quatro, cinco, seis anos, desde o início de sua vida. Elas chegam com muitas esperanças. É horrível ver como, passados poucos meses, começam a assumir a responsabilidade pelo próprio fracasso. Dizem: "A professora já ensinou, mas eu não aprendi, sou burra". Acredito que o pior dano que se pode causar a uma criança é fazê-la perder a confiança em sua própria capacidade de aprender. O que acontece no primeiro ano da escola tem reflexos não apenas na alfabetização, mas na confiança básica que cerca toda a escolaridade posterior. E tem a ver também com a possibilidade de manter a alegria de aprender, já que aprender não tem de ser necessariamente puro sofrimento, como se pensava no passado, ou puro jogo.
O que é aprender?
Aprender exige enfrentar desafios intelectuais - e para permanecer no desafio é preciso ter energia e auto-confiança. Por isso, é necessário permitir que as crianças aprendam, permitir que tenham confiança na capacidade de aprender e na capacidade de continuar aprendendo. O prolongamento da educação básica que temos hoje é razão mais que suficiente para manter nas crianças a capacidade de continuar aprendendo e não apenas obrigá-las a permanecer na escola esses anos todos, simplesmente porque isso foi estabelecido por lei.
A senhora tem dito que os requisitos exigidos para que alguém seja considerado alfabetizado têm mudado ao longo do tempo e que estamos, precisamente agora, sofrendo uma dessas mudanças. Como têm sido esse processo?
Não existe uma definição de pessoa alfabetizada que seja válida para qualquer lugar e tempo. Estar alfabetizado na Idade Média - quando os conventos copiavam os textos cuidadosamente, porque era a única maneira de reproduzi-los, quando a leitura era fundamentalmente intensiva, de poucos textos, que eram ruminados para que se fizesse sua exegese - não é o mesmo que estar alfabetizado um tempo depois, quando se criaram as universidades e se passou de uma leitura intensiva a uma leitura progressivamente extensiva - muito textos diferentes que deviam ser comparados e citados. Não é o mesmo, também, no tempo da criação da escolaridade obrigatória, ou no começo da primeira Revolução Industrial. Com o rápido crescimento da imagem televisiva, em algum momento pensou-se que a imagem viria a substituir o texto. Aí chegou a revolução informática, e novamente tudo mudou. A definição do que seja um leitor eficiente, que pode circular com tranqüilidade no mundo da escrita, muda necessariamente na medida em que a presença da escrita é cada vez mais intensa na sociedade.
Qual a importância da escrita no momento atual?
Vivemos um momento em que a escrita tem uma forte presença por toda parte no meio urbano, nas paredes, nas camisetas, na tela do computador, nos rótulos dos produtos, nas placas de indicação das estradas. Para ser um cidadão que exerce seus direitos, é preciso estar capacitado para fazer uma leitura crítica das mensagens escritas - uma leitura compreensiva, que permita comparações, extraia conseqüências dessas comparações etc. Portanto, hoje, não se pode considerar que alguém esteja alfabetizado apenas porque é capaz de ler instruções simples, ou porque sabe assinar. Não há a menor dúvida de que temos de ser capazes de formar pessoas que saibam expressar-se por escrito em diferentes gêneros discursivos: que saibam redigir uma petição para uma autoridade, escrever uma carta a um amigo e - por que não? - escrever sua própria história, se quiserem contá-la a outras pessoas deste mundo.
Como foi a mudança produzida pela chegada do computador?
A presença da escrita na tela do computador é hoje um fato universal. A tecnologia da informação e da comunicação está trazendo mudanças importantes não apenas no mercado de trabalho, mas também nas práticas de leitura e escrita. Navegar na Internet exige um comportamento do leitor bastante diferente do comportamento que ele tem diante do livro. Para começar, o texto na tela circula no sentido vertical. Lembra a manipulação de um rolo, como se fazia na Antigüidade Clássica, antes da invenção do livro - que manuseamos virando as páginas. A organização da página do livro é muito diferente da que temos na página do computador, que está cheia de distratores. É quase como entrar em um shopping ou supermercado: há luzes, bonequinhos que brincam. Quem não sabe exatamente o que está procurando fica perdido nesse mundo. Além disso, um site leva a outro, e a outro, e a outro, e cada site propõe uma série alternativa de possíveis distratores. Caso os sigamos, seremos um barco à deriva em vez de um bom navegante. É necessário ter, portanto, habilidades de seleção, manter o sentido da busca, uma tarefa que exige bastante concentração e decisão rápida, para selecionar o que serve ou não. No entanto, estas habilidades não costumam ser valorizadas na escola, onde cada texto vale por si mesmo. A escola não desenvolve a prática nem da busca da informação, nem da tomada de decisões rápidas, da escolha sobre o que é pertinente ou não. Os comportamentos dos leitores também estão mudando, embora nem se pense ainda em substituir totalmente a leitura em papel. E é uma maravilha poder consultar jornais de diferentes países sem sair de casa. Eu mesma posso, no México, onde moro, ler os jornais brasileiros, que antes eram muito difíceis de conseguir.
A senhora diz que os momentos de mudança são muito importantes e precisam ser aproveitados. Como aproveitar este momento?
Estamos assistindo a uma mudança generacional, porque os experts em informática são os jovens, e temos de acreditar neles. Isto abre um grande potencial educativo, se os professores consentirem em deixar-se guiar pelos jovens, aprender com eles - o que permitiria mudar um pouco as relações no ensinar e aprender, sempre de cima para baixo. Em casa, muitos professores estão sendo ensinados pelos seus filhos. Seria tão interessante que na escola também fosse assim! Nas aulas de informática na escola, deveríamos usar os alunos, e os alunos de outras escolas também, em vez dos professores, que ainda não dominam a tecnologia. Somos de uma geração que se alfabetizou com livros e depois teve de realfabetizar-se com o computador. Mas os que já nasceram com a tecnologia posta na sociedade - não importa que a tenham ou não em casa - desenvolvem uma relação diferente com o computador: é algo normal, como a televisão. Os adultos têm medo, pensam que vão estragar, apagar alguma coisa. Há crianças que aprendem a escrever no computador antes de escrever com lápis e papel. E alguns professores me procuram, completamente apavorados com isso. Digo-lhes que não fiquem apavorados, que o computador é um instrumento para escrever, como o lápis. Não se deve confundir o instrumento usado para escrever com a compreensão dos sistemas de marcas da escrita. Entender os significados das marcas que se produzem com os instrumentos é outra coisa, um problema conceitual. Além do mais, o teclado do computador, similar ao de uma máquina de escrever, tem a vantagem de acabar com certos pseudo-problemas pedagógicos, que davam lugar a tantas discussões inúteis: deve-se escrever com caracteres separados ou ligados? Com letras cursivas ou de imprensa? O que fazer com os canhotos? No computador, cada um escreve como quiser: escolhe o tipo, pode ligar os caracteres separados com uma instrução muito simples. E escreve-se com as duas mãos. É ótimo poder liquidar problemas pseudo-pedagógicos, pois sobra mais tempo para refletir sobre os verdadeiros problemas.
No Brasil, estamos enfrentando uma situação difícil: parte da população ainda é analfabeta; outra parte, bastante significativa, é pouquíssimo letrada; e a imensa maioria é analfabeta digital. É possível pensar e tentar encaminhar todas essas questões ao mesmo tempo?
Eu diria que é necessário, e aí veríamos se é possível, mas não há como fugir de tratar todas essas questões ao mesmo tempo, porque o mercado de trabalho, cada vez mais instável e competitivo, vai colocar em vantagem os que tenham alguma habilidade em informática. A escola não pode ignorar isso. Tenho a convicção de que é responsabilidade da escola pôr as crianças em contato com o que haja de melhor em seu tempo.
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