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O fato de ser filho de um dos mais famosos empresários brasileiros - Olacyr de Moraes - não impediu que Marcos Moraes fizesse brilhante carreira solo no mundo dos negócios. Aos 34 anos, ele integra o conselho da Zip.net, empresa que criou, em 1996, e que, no início do ano passado, repassou, por 365 milhões de dólares, para a Portugal Telecom Multimedia. Foi o primeiro grande negócio da Internet brasileira.
Nesta entrevista ao Band, Marcos Moraes fala dos rumos da Internet, conta também a história do primeiro e-mail gratuito do País - o ZipMail - e comenta o sucesso do portal Zip.net, que, por sinal, acaba de ser incorporado ao Universo Online (UOL) - maior provedor brasileiro de acesso à rede - numa operação que ampliará o seu capital em 200 milhões de dólares.
De onde veio a inspiração para a criação do Zip.net?
Em 1991, eu trabalhava com meu pai na empresa da família. Um dia apareceu a proposta para que a empresa entrasse na privatização de telecomunicações, o que não aconteceu na época, porque tínhamos um Congresso bastante nacionalista. Isso, entretanto, chamou minha atenção para essa área, que é um pouco diferente da tradicional. Nessa ocasião, tive a oportunidade de ir a Seatle e visitar a Mcaw Celulary, que era a maior empresa de celular do mundo. Depois, ela foi comprada pela AT&T. Fiquei impressionadíssimo, porque era uma empresa extremamente informal, enxuta, com pessoal jovem e ativo. Não tinha nada a ver com o que eu esperava de uma megacorporação. Aí eu disse: é isso que eu quero que um dia seja a minha empresa. Em seguida, montei uma empresa de pager, a Access, e fui aos poucos me desligando dos negócios da família. Hoje, eu não tenho mais nenhuma ligação com eles.
Como foi o processo de implantação do Zip.net?
Em 1996, quando se começou a falar em Internet, fomos procurados pela Netcom - uma provedora de acesso americana, independente, da Costa Oeste, muito grande, à qual nos associamos. Logo em seguida, ela foi comprada por outra empresa. Nós tínhamos a marca Internecticom, que era marca internacional na época, e resolvemos comprar a parte deles aqui no Brasil. Como tínhamos uma carteira muito grande de clientes corporativos - Bovespa, TAM, Pão de Açúcar, BMW e Nestlé, entre outros -, começamos a discutir a maneira de atendê-los, trazendo-lhes consumidores e, ao mesmo tempo, por meio da Internet, interatividade. Surgiu, então, a idéia do e-mail gratuito. Isso porque o e-mail gratuito era uma maneira muito barata de adquirir novos clientes e de se ter informação sobre o usuário, o que era fundamental. Discutimos isso de manhã, conversamos mais um pouco na hora do almoço e, às seis da tarde, estava decidido que iríamos fazer esse e-mail, ainda sem nome. Demos o prazo alucinante de 90 dias, para ter tudo funcionando. E, em 90 dias, nós tínhamos o ZipMail, o primeiro serviço de e-mail gratuito do Brasil, com equipamentos comprados, comerciais da Luana Piovanni na televisão, enfim, tudo funcionando. O plano foi captar um número grande de usuários, traçar o perfil deles e, em cima disso, construir um portal.
E esse portal foi o Zip.net?
Sim. O Zip.net, no seu lançamento, quase foi vítima do próprio sucesso. Esperávamos, na melhor das hipóteses, obter 300 mil usuários em um ano. Em oito meses, tínhamos 1 milhão. Chegamos a conseguir a adesão de até 11 mil usuários num único dia. Tudo isso num país que, à época, tinha no máximo 3 milhões de internautas. Foi uma operação de guerra, para fazer o sistema agüentar. Montamos o portal. Alguns meses depois, o Unibanco nos procurou, propondo comprar 11% do negócio, o que nos possibilitou continuar crescendo.
Como se deu a transação com a Telecom Portugal Multimedia?
A transação com a empresa portuguesa foi em janeiro de 2000. Nessa época, pretendíamos fazer mais um round de capitalização da empresa e abrir o capital. Por isso, fui para os EUA fazer o famoso road show, onde o empresário interessado em obter recursos é sabatinado de todas as formas pelos investidores, que analisam desde a cor da sua meia até a ponta do seu cabelo. Queríamos captar 50 milhões de dólares, mas tivemos oferta de 200 milhões. De repente, pipocaram na mesa do banco que nos representava cinco propostas, para comprar a empresa inteira, entre elas a da Portugal Telecom. As propostas eram muito parecidas do ponto de vista financeiro. Decidimos vender para a Portugal Telecom porque nos pareceu que ela tinha maior compromisso com a continuidade do negócio, pelo fato de já ter investido muito Brasil.
Como o empresário que realizou o primeiro grande negócio da Internet brasileira vê o futuro desse setor no Brasil?
Eu acredito muito numa coisa chamada era da Informação, era do conhecimento. Isso está acontecendo aqui e agora. E nós, brasileiros, somos parte desse processo. Isso cria uma oportunidade muito grande para o País. A lacuna entre nós e os países desenvolvidos é substancialmente menor do que nas atividades econômicas tradicionais, em que ficamos para trás. Há uma janela que o Brasil não pode perder, para ocupar um espaço nesse mundo novo. E nós temos algumas vantagens, entre elas, o fato de já nascermos globalizados. Olha a miscigenação racial que existe aqui. Somos um país riquíssimo culturalmente, isso traz uma criatividade enorme.
Precisamos acreditar em nós mesmos e parar um pouco com os discursos antiquados, contra a globalização, por exemplo. A globalização será a maior bênção que já aconteceu para o Brasil, se a soubermos usar isso a nosso favor.
O que a Internet pode representar para a educação no Brasil?
Tenho o maior orgulho de termos desenvolvido o Zip Educação, um projeto que deu acesso gratuito à Internet às escolas da rede pública do Estado de São Paulo, antes mesmo que isso ocorresse comercialmente. Na primeira fase de seu processo, o Zip Educação envolveu-se no cadastramento dos 6,5 milhões de alunos e dos 750 mil professores do Estado, criando uma verdadeira comunidade.O que vale no mundo hoje? Inteligência e massa cinzenta. Capital existe. Então, você está dando o instrumento para essa inteligência interagir, você está dando um instrumento para amanhã as empresas terem acesso a essa inteligência. Imaginemos, se fosse possível transformar em números, em dólares - que é a linguagem dos capitalistas - o talento desperdiçado todo dia no mundo, por falta de oportunidade. O importante, então, é realmente começar por dar, de alguma forma, um instrumento de acesso a quem pensa e de onde se possa tirar talento novo.
Que recado você daria para os jovens que estão se preparando para ingressar no mercado de trabalho?
O importante é abrir a cabeça. Sempre a percepção foi uma arma forte, mas agora é uma arma fundamental, pois estamos num momento de mudança. E são nas mudanças que aparecem os riscos e as oportunidades. Nós não estamos entrando na era de quem gosta de estabilidade, de chegar e botar o paletó na cadeira e ir para a casa às seis da tarde. Isso até pode existir. Mas essa é a era para quem gosta de criar alguma coisa diferente, para quem gosta de arriscar. Perder não é o fim do mundo. Perdeu, recomeça. Do zero, se for preciso. Também é importante manter a mente aberta a novas idéias. Mais importante do que o que você vai pôr na cabeça é o que você vai tirar da cabeça: os vícios, os dogmas.
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