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Em termos biológicos, o ciúme é considerado uma emoção adaptativa, desenvolvida durante milhões de anos em simbiose com o amor duradouro. Provavelmente, surgiu como uma defesa primária contra as ameaças de infidelidade e abandono. Os evolucionistas nos dizem que mudanças recíprocas ocorrem seqüencialmente na interação das espécies ou entre os sexos de uma mesma espécie.
O resultado, para nós, é que as mulheres se tornaram excelentes detectoras da traição amorosa, devido à sua superioridade em decodificar sinais não-verbais. E os homens, por sua vez,desenvolveram grande habilidade para "dar uma escapada".
Ciúmes desencadeiam raiva, vergonha, medo da perda, explosões de amor e até reações de terrível violência. Mas parece ser uma tentativa inconsciente de preservar e proteger o sentimento frágil, que é o amor. Muitas vezes criticado como sendo a prova de insegurança e falta de auto-estima, abominado nos anos 60, 70 e início dos 80, na época em que o amor livre era estimulado e reverenciado como sendo a nova maneira de se relacionar, hoje passa a ser pesquisado dando margem a uma interpretação mais conservadora. Estudiosos estão considerando o ciúme um seguro antigo e até certo ponto eficaz para ajudar os casais a se manterem juntos, na nossa época de relacionamentos frágeis e divórcios quase tão freqüentes quanto o número de casamentos.
Quando um dos pares percebe sinais novos, tipo um perfume diferente, alguma mudança no comportamento sexual, ausência para compromissos, esticadas no horário de trabalho, então, o gatilho é acionado. Se nosso par olha por algum segundo a mais para alguém que também o está olhando, a suspeita se desencadeia e nosso mecanismo de defesa começa a se manifestar. Esses sinais nos alertam para a possibilidade de infidelidade, já que foram estatisticamente ligados ao fim de relacionamentos.
É óbvio que episódios de ciúmes exagerados, irracionais e patológicos podem destruir um casamento sólido. É como uma ferrugem, um veneno que vai corroendo as bases, expondo as entranhas, até não deixar mais nada do que havia sido construído. Mas, quando é vivenciado da maneira adequada, pode enriquecer a vida a dois, realçar a paixão e solidificar o compromisso. A total ausência de ciúmes, muito mais do que sua presença, é mais prejudicial para o relacionamento, porque pode sinalizar indiferença e rejeição, sentimentos com os quais ninguém é capaz de lidar bem.
Provocar ciúmes é um dos jogos mais utilizados no dia-a-dia dos casais. Quando se quer verificar a seriedade de compromisso do par, os dois sexos usam variadas táticas. As mulheres mais freqüentemente paqueram outros homens na frente de seus companheiros, trocando olhares, mostrando interesse, conversando e brincando. Os homens, por sua vez, olham de longe, elogiam outras mulheres e é comum desaparecem por algum tempo. Não há nada melhor para deixar uma mulher insegura e brava do que não saber onde ele está.
Uma forma eficaz de provocar ciúmes é a demonstração de indiferença. Quando alguém age de forma distante e desinteressada, provoca a sensação de que o outro não é importante. Ao não atender ao telefone na hora combinada, ele facilmente vai imaginar que ela o está evitando. E ao não combinar o fim-de-semana a dois, na maioria das vezes, vai deixá-la desconfiada e ressentida.
Vestir-se de forma provocante é uma arma freqüentemente utilizada pelas mulheres, que deixa os homens perturbados. Enquanto alguns relatam sentirem-se orgulhosos e vaidosos por estarem com uma mulher que chama tanta atenção, outros sentem-se inseguros e até humilhados pelos olhares de desejo que ela desperta.
Uma das questões mais sérias acontece quando a mulher simplesmente sorri para um outro homem. Em geral, a interpretação para essa atitude é a de que ela está fazendo um convite para um avanço sexual (eles decodificam assim). Seu companheiro vai se enfurecer diante da possibilidade de ela estar encorajando alguém. É possível até se chegar a uma confrontação, revelando-se, portanto, ser um método altamente eficaz para se sentir desejada e admirada.
O objetivo de provocar ciúmes é muitas vezes ligado à necessidade de se sentir seguro dentro de uma relação amorosa. Ninguém gosta de se entregar se não houver alguns sinais de que o terreno é possível de ser trilhado. A estratégia serve para aumentar a auto-estima devido à atenção que provoca nos parceiros, aprofundar o compromisso na medida em que se torna mais desejáveis aos olhos dos outros e testar a força da ligação afetiva: se a reação é a indiferença, não há amor.
Assim, apesar de trazer um custo alto pelo sofrimento que pode causar para a relação, provê informações valiosas que não são fáceis de se obter. Se usado de forma irracional e pouco inteligente, porém, trará conseqüências desastrosas e o sofrimento muitas vezes pode desencadear o fim do relacionamento. Num dos mais belos e tristes dramas de Shakespeare, "Othelo", o ciúme provocado pela intriga envenena de tal forma o amor que o personagem acaba matando a sua amada.
Em seu livro "Dangerous Passions", David Buss, Phd, professor de Psicologia na Universidade de Austin, relata que em seus estudos descobriu que alguns sinais de ciúme servem como interpretações precisas de atos de amor. Quando um homem aparece de repente, para ver o quê sua companheira está fazendo, revela um modo discreto de vigiar, que serve para preservar sua exclusividade e também para comunicar seu amor. Ao perder o sono pensando sobre seu companheiro e imaginando que ele possa estar com outra pessoa, uma mulher está vivenciando a profundidade de seu amor e a intensidade do seu ciúme. Se um homem conta para seus amigos que está apaixonado, está não só assumindo seu afeto, mas também avisando aos possíveis rivais para caírem fora. Seria improvável que um sentimento como o amor, que exige um tremendo investimento psicológico, pudesse biologicamente ter se desenvolvido sem uma defesa, que o protegesse da disputa entre rivais e da possibilidade de traição. O ciúme surge primeiro como defesa e proteção do sentimento, mas pode se transformar em violência nas situações extremas. Nesses casos, torna-se uma fixação mórbida e patológica, num sintoma de neurose a até de psicose, que os terapeutas precisam tratar como um fator perigoso e decisivo para a saúde mental.
A sensação do ciúme pode ser dolorosa, mas alerta sobre possíveis ameaças de abandono e traição.
Informa quando a indiferença do outro não significa apenas excesso de trabalho ou de estudo. Faz lembrar que a atenção para pequenos sinais não necessariamente revelam paranóia e, ao serem bem detectados, podem evidenciar que a relação está chegando ao fim.
Maria Clara S. Heise Psicóloga Psicoterapeuta - Tel. 38870933
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