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Encontro marcado com a solidão
Viver no século XXI implica sérios desafios à manutenção da identidade e preservação do nosso ego. Somos superestimulados por informações, contatos, a Internet nos conectando com o mundo, o celular ampliando a possibilidade de encontrarmos e sermos encontrados. Mais do que nunca, não temos tempo para estarmos sós, com nós mesmos.

A solidão é malvista, as pessoas que ficam mais sozinhas são consideradas excluídas, ou diferentes, excêntricas. O sucesso social é comumente medido pela quantidade de vezes que alguém é visto e com quem. Crianças que conseguem se distrair por mais tempo sem companhia, preocupam os pais que tratam de lotar as agendas dos pequenos com aulas extras, esportes, sem valorizar algum espaço para ficarem a sós e decidirem se querem brincar, sonhar ou fazer nada …

Temos dentro de nós duas forças essenciais para nossa sobrevivência e bem-estar, que são igualmente poderosas e interdependentes - estar só e relacionar-se. O sono é uma forma natural de nos garantir isolamento, para repormos nossas forças e descansarmos, mas, além do sono, a vida urbana nos proporciona poucas chances de ficarmos a sós. Até as igrejas ou templos religiosos, onde se buscava momentos de paz e tranqüilidade, hoje são lugares cheios de barulho, com muito som e eventos espetaculares, permanecendo fechados quando sem programação.

A solidão traz sem dúvida o risco de isolamento quando é exagerada e está encobrindo dificuldades no contato social. A idéia de estar só evoca medos infantis de abandono, negligência e provoca o impulso de busca por companhia. No entanto, certo isolamento não pode deixar de existir em nossas vidas como parte da condição humana. Quando estamos sós, temos a chance de sentir e avaliar como está nossa vida e como estão nossos relacionamentos - se estamos nos comunicando bem, se estamos sendo compreendidos e aceitos, ou se estamos isolados demais, vivendo contatos superficais e distantes, sem significado maior. Podemos perceber ainda o quanto estamos conectados com nosso eu íntimo, atendendo às reais demandas internas.

A necessidade de amor, de conviver com a família e com amigos, não provoca a sensação de solidão, ao contrário, serve de impulso para a busca da vivência afetiva. Nem sempre, porém, o fato de estarmos cercados de pessoas queridas satisfaz nossas carências. Muitos que convivem com a família podem sentir-se tão ou mais sozinhos quanto outros que moram sós …

O que quero dizer é que relacionamentos nem sempre significam ligações satisfatórias. Em algumas situações, representam um compromisso onde as pessoas se sentem infelizes e aprisionadas. Quantos casamentos ou laços familiares são mantidos dessa forma?

Como psicoterapeuta, fico surpresa quando vejo pacientes sentirem-se gratos aos parceiros, parentes ou amigos porque puderam ficar sozinhos para resolverem ou viverem assuntos pessoais. A impressão é de que são prisioneiros que tiveram um prêmio por boa conduta. E muitos ainda sentem culpa por desfrutarem momentos assim.

Gostei demais do depoimento de Amyr Klink em seu último livro: "Passados dois meses, comecei a pensar no sentido da solidão. Um estado interior que não depende da distância nem do isolamento, um vazio que invade as pessoas e que a simples companhia ou presença humana não podem preencher, solidão foi a única coisa que não senti depois de partir. Nunca. Em momento algum. Estava, sim, atacado de uma voraz saudade." (Amyr Klink , Cem dias entre o céu e o mar.)

Portanto, isolamento nem sempre significa solidão e vice-versa. Mas, a necessidade varia de pessoa para pessoa. Algumas precisam subir montanhas, embrenhar-se nos matos, outras simplesmente colocam seu walkman nos ouvidos. A única maneira de saber de quanto e de qual espaço precisamos é passando um tempo sozinhos, observando como nos sentimos.

A maioria das pessoas anseia pela chegada das férias do trabalho, para desfrutar, relaxar, mudar de ares e de rotina (exceto os workoolics, é claro), mas sentem-se mal quando querem ficar algum tempo longe dos entes queridos, o que é uma necessidade válida, sem significar desamor. Basta lembrar o quanto certos momentos de solidão foram importantes na nossa infância, quando fazíamos explorações, criávamos fantasias, conquistávamos o mundo!

Para casais que desejam um tempo individual para si próprio, a comunicação franca deve ser o melhor caminho. Conheço muitos bem casados que todo ano se afastam em atividades diferentes. Ele, por exemplo, vai pescar e ela, fazer um curso em outra cidade. Isto representa muito para quem quer manter sua individualidade, apesar de se sentir profundamente comprometido com o companheiro. Quantos de nós não precisamos de 20 ou 30 minutos sozinhos quando chegamos do trabalho, para nos desligarmos das tensões do dia e estarmos prontos para encontrarmos a família? São momentos preciosos que exigem respeito e cuidado.

Não posso deixar de mencionar a importância da reclusão para o processo criativo. É verdade que muitos gostam de criar em grupo, como os publicitários, por exemplo, e sabemos das vantagens de uma sessão de "brainstorm", mas a maioria dos artistas, escritores, cientistas e mesmo as pessoas comuns precisam estar a sós para se inspirarem e produzirem sua obra. As soluções criativas para a vida também exigem isso. O inconsciente precisa de tempo para lidar e internalizar os problemas ou situações que vivemos. Nós nos inspiramos nos outros, buscamos informações para ampliarmos nosso conhecimento, temos que praticar para melhorar a performance e devemos estar sozinhos para perceber o que sentimos e dar chances ao nosso imaginário de encontrar soluções. Quando um paciente está num dilema complexo nem sempre a melhor maneira de ajudá-lo é ficar focalizado no assunto, ao contrário, é mais eficiente levá-lo a pensar de forma mais ampla, descentralizando a questão.

A criatividade natural que existe dentro de nós vem através de insights, explode com nossa imaginação, e evolui para a decisão quando nos damos tempo para refletir, para meditar.

Precisamos abolir a idéia de que a solidão é negativa e a de que pessoas sozinhas não podem viver bem. É evidente que sim, desde que distribuam seu tempo de forma adequada e positiva. Para os que vivem acompanhados, aprender a valorizar os momentos de quietude, de contemplação, é fundamental. Não podemos nos esquecer de que o amor não é a única condição para o bem-estar na vida moderna. Trabalho, criatividade e lazer também sustentam nossa saúde mental. A solidão torna-se uma grande proteção para o psiquismo. É válida a sugestão dos que meditam que é a de viver cada momento como único, respeitando os pensamentos, emoções e sensações físicas.

Para mais informações sobre o assunto, sugiro o livro (ainda sem tradução) The call of solitude, de Esther Bucholz, Ph.D, Ed. Simon and Shuster.

Maria Clara S. Heise Psicóloga Psicoterapeuta - Tel. 38870933
R. Gen. Mena Barreto, 498.
Jd Paulista. S.P - Cep. 01433-010

  
 


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