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Nas listas de livros mais vendidos, encontramos sempre aqueles de auto-ajuda. Autores surgem do anonimato, ensinando aos leitores fórmulas para que sejam felizes, garantam o sucesso profissional, superem uma depressão, tornem-se confiantes, enriqueçam, sejam atletas sexuais, salvem o casamento e conquistem tantas outras coisas que não vale a pena mencionar.
Tudo parece fácil, organizado e prático. As pessoas devoram vorazmente os livros na tentativa de aliviar suas angústias. Muitos conselhos são ótimos, justamente porque são baseados no senso comum, por que nos mostram tudo o que já sabemos. Outros trazem idéias criativas, com exercícios vigorosos para mudar nossa rotina, nossos maus hábitos repetitivos que tanto nos aprisionam. No entanto, é bom ter cuidado. Muitas sugestões são apenas óbvias. Tratam superficialmente os problemas, sem considerar aspectos mais profundos que precisam ser desvendados, para que uma mudança nos sentimentos ocorra de fato. O ser humano é tão único e complexo que dificilmente podemos usar a mesma idéia, da mesma forma, para todos se beneficiarem.
Vou exemplificar alguns desses conselhos: "Se estiver sentindo muita raiva ou frustração, esmurre com força uma almofada, gritando, pondo para fora tudo o que está entalado." Realmente esse exercício provoca uma excelente descarga física e emocional, porque leva a um grande cansaço. Estudos médicos afirmam que a expressão ativa da raiva eleva perigosamente a atividade cardiovascular e pode causar distúrbios nessa área. A pessoa sente-se aliviada e descontraída, mas, se não enfrentar e resolver o verdadeiro problema, entrará num círculo vicioso de mais raiva e frustração. Especialistas sugerem que para lidar com essas emoções é melhor dar um tempo, conversar com amigos, assistir a um filme leve e só então enfrentar a situação de uma forma construtiva. A prática constante de exercícios físicos, no entanto, como nos esportes e na dança, contribui muito para aliviar a raiva e regular o humor, ajuda a atingir uma maior consciência dos estados emocionais.
"Para alcançar o sucesso visualize claramente sua meta e isso vai levá-lo ao seu objetivo. Faça isso todos os dias." O mais importante para se atingir um objetivo é o estabelecimento das metas para se chegar até ele. Por exemplo: um jovem que quer ser médico precisa separar em etapas a sua trajetória, começando uma preparação séria para o vestibular, organizando os horários de estudo e freqüência às aulas, diminuindo as baladas, produzindo toda uma mudança de vida que ele precisa visualizar muito para depois não se sentir enganado pelos seus próprios sonhos. O plano deve poder ser mudado e ajustado de acordo com os progressos ou fracassos atingidos ao final de cada meta preparatória.
"Quando estiver deprimido, imagine-se feliz e focalize seu lado positivo." Tudo bem, se não fosse o fato de nosso cérebro ser incapaz de suprimir esses sentimentos negativos justamente quando estamos tristes! O pessimismo toma conta de nós deixando-nos sem energia. O mais eficiente numa situação dessas é buscar a ajuda de familiares, amigos, terapeutas, de alguém que possa nos distrair ou ver a situação sob outro ângulo. Quando não há a possibilidade de trocarmos idéias e temos que contar com nós mesmos, é útil listar coisas de que gostamos, que nos trazem bem-estar ou ainda lembrar de outras situações de tristeza que vivemos no passado e que foram superadas resultando em experiência e auto-confiança.
"Quando precisar melhorar sua auto-estima, faça afirmações positivas a respeito de si mesmo, repetindo-as várias vezes todos os dias." A auto-estima depende muito da aceitação dos nossos defeitos e qualidades, da percepção do quanto somos queridos e do senso de quanto somos competentes. Precisamos ouvir dos parentes, amigos, professores ou chefes, o que sentem por nós e como foi nosso desempenho, para reforçar as noções de quem somos - se queridos, eficientes ou não. Afirmações feitas por nós mesmos não levam a nenhuma confirmação. Quando falhamos, podemos até nos sentir piores do que antes. E tem mais: pessoas com baixa auto-estima não valorizam sua própria opinião. Portanto, não vai adiantar nada ficar conversando consigo mesmo. Muito mais eficiente será cercar-se de amigos que possam dar um feedback positivo, dedicar-se a fazer as coisas bem feitas, aceitar suas dificuldades e ter muita paciência, pois a auto-estima é conquistada através das interações com os outros e com o meio ambiente durante a vida toda, nunca da noite para o dia.
Procurar soluções para seus problemas emocionais nos livros, revistas, tevê ou Internet pode trazer algum alívio imediato - aliás, muito bem-vindo. Mas é importante distinguir a seriedade do amadorismo. Checar a fonte da informação é imprescindível. As sugestões vêm de um profissional da área? Cuidado com as histórias de pessoas sobre a própria experiência, pois isso não as habilita a resolver os problemas dos outros, apesar da validade de seus depoimentos, muitas vezes ricos e interessantes.
Alguns problemas emocionais têm uma carga genética, como o transtorno obsessivo compulsivo, e são difíceis de serem superados. Outros contêm elementos tão profundos e inconscientes que são impossíveis de serem atingidos somente com informação e esclarecimentos. Um diagnóstico sério e cuidadoso deve fundamentar a direção da mudança para que os problemas não se agravem. O comportamento humano é de tamanha complexidade que para se pensar em mudá-lo é necessário estar bem embasado cientificamente em pesquisa, estudo e prática clínica, acompanhados de uma postura de ética e respeito para com o outro.
Maria Clara S. Heise Psicóloga Psicoterapeuta - Tel. 38870933
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