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Fazer com que os alunos concluam o ensino médio e cheguem à universidade é o principal desafio do secretário estadual da educação, Gabriel Chalita. Atualmente, 8,4% dos seis milhões de estudantes da rede abandonam a escola antes do término, em uma das séries do antigo 2º. grau. Programas como o “Escola da Família”, que abre as portas das escolas durante os fins de semana, e a expansão das Faculdades de Tecnologia (Fatecs), no interior e na capital, são algumas de suas apostas. Mas não é só isso. Chalita acredita que é preciso cativar o jovem e investe na chamada educação com afeto. “O afeto é um componente imprescindível que deve pautar a relação mestre-aprendiz, juntamente com o respeito, a admiração e a amizade”, disse em entrevista exclusiva ao Jornal do Band. Além de conquistar os alunos, Chalita tem a missão nada fácil de estimular e atualizar os professores do ensino público. “O governo do Estado está disponibilizando, ao mesmo tempo – junto com diversas instituições parceiras –, cursos de mestrado, graduação, palestras, fóruns, encontros, congressos, debates, videoconferências e teleconferências que contribuem para que o educador se torne cada vez mais qualificado.” Crítico dos CEUs de Marta Suplicy e admirador de Machado de Assis, Chalita, que entrou na política aos 19 anos, afirma que estar à frente da secretaria é um “privilégio e um enorme desafio”. Confira a entrevista:
Band: Recentemente o sr. lançou o livro “Os Dez Mandamentos da Ética”. Quais seriam os mandamentos da educação na São Paulo de hoje? Chalita: Ética e educação são, a nosso ver, conceitos complementares, indissociáveis e que se fortalecem sobremaneira quando aplicados de forma conjunta e gradativa. Quando refletimos sobre o tema do aprendizado e da aquisição de saberes de forma mais detida, concluímos que uma educação de qualidade não pode, jamais, prescindir da ética. Nesse contexto, todos os programas e projetos que criamos e desenvolvemos para a rede estadual de ensino trazem em sua essência preceitos que determinam uma postura ética perante a vida. É dessa forma que podemos contribuir para a formação integral do aluno, que abrange seu rescimento intelectual e emocional, sua preparação para o mercado de trabalho e também para a vida. Por isso, acreditamos que mestres e aprendizes têm de caminhar juntos na construção de um conhecimento voltado para valores e atitudes que giram em torno dos 10 mandamentos da ética. São eles: fazer o bem, agir com moderação, saber escolher, praticar as virtudes, viver a justiça, valer-se da razão, valer-se do coração, ser amigo, cultivar o amor e ser feliz. Nesse sentido, programas como o Mutirão da Cidadania, o Escola da família, o Prevenção também se ensina e o Tá na roda: uma conversa sobre drogas são exemplos desse trabalho voltado à construção da ética e da cidadania. Educação e ética visam, sobretudo, à meta comum da busca da excelência em todas as coisas, da prática do bem, do equilíbrio, da tolerância, da convivência harmoniosa com nossos semelhantes, do despertar e da solidificação de talentos, competências e habilidades. São esses nossos mandamentos. São esses nossos instrumentos para edificar a Escola de nossos sonhos.
Band: A progressão continuada é um sistema que recebeu inúmeras críticas de pais e educadores e, no entanto, persiste até hoje. O modelo é o mais adequado? C: A Progressão permite a aplicação de metodologias de ensino diferenciadas, que preconizam, primeiramente, o direito ao aprendizado. Cada aluno tem um tempo, uma maneira própria de assimilar conteúdos, de apreender o conhecimento. O sistema de progressão continuada respeita esse tempo e identifica maneiras de auxiliar os estudantes a superar todas as etapas desse processo de forma tranqüila e segura. Trata-se de um método que cria meios alternativos para que o binômio ensinoaprendizagem ocorra de forma bem-sucedida. Por meio da Progressão Continuada trabalhamos com o conceito de que todos os alunos têm capacidade de aprendizado e de assimilação, desde que sejam pedagogicamente bem conduzidos. O fracasso escolar não recai mais sobre o estudante como ocorria antes da aplicação desse sistema. Para tornálo ainda melhor, instituímos várias medidas, dentre elas, a aplicação anual do Sistema de Avaliação e Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), cujo objetivo principal é monitorar a qualidade do ensino, subsidiando as tomadas de decisões da Secretaria e contribuindo para a melhoria de todos os nossos programas e propostas pedagógicas. Em plena Era da Informação e do Conhecimento, não há mais espaço para o ensino visto como tradicional, burocrático, encerrado por diretrizes curriculares incompatíveis com a realidade em que vivemos. Nesse sentido, uma das qualidades da Progressão Continuada é justamente acompanhar as tendências educacionais vigentes no mundo, tendo o apoio de todos os grandes educadores.
Band: Em que ritmo anda a escola da família. O programa já apresenta resultados? C: O Programa Escola da Família, que teve início dia 23 de agosto de 2003, é uma iniciativa da Secretaria de Estado da Educação em parceria com a Unesco e com apoio do Instituto Ayrton Senna e do Faça Parte - Instituto Brasil Voluntário. O programa envolve os 6 milhões de alunos das quase 6 mil escolas estaduais, tendo como objetivo principal abrir as portas da escola nos finais de semana para que pais, alunos e comunidade aproveitem o ambiente escolar como um espaço propício à educação, ao lazer, à prática de esportes, à cultura, às noções de cidadania recebidas durante palestras, oficinas e demais atividades coordenadas por universitários e educadores. De agosto a dezembro de 2003, mais de 10 milhões de pessoas participaram das atividades do Escola da Família. A aprovação do programa foi corroborada por uma pesquisa realizada em dezembro pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). A instituição entrevistou cerca de 32 mil pessoas, entre coordenadores de área, diretores e vice-diretores de escolas, coordenadores pedagógicos, educadores profissionais, universitários, bolsistas, alunos e pessoas da comunidade. A pesquisa abordava um total de 23 itens pesquisados. Em todos, o programa obteve resultados ótimo e bom.
Band: Sua bandeira é a educação com afeto. Como tem sido o trabalho da Secretaria com os professores e pedagogos nesse sentido? C: Durante nossas capacitações, enfatizamos a importância do professor no processo educativo e o modo como ele é determinante para a formação do aluno, do ser humano, do cidadão consciente de seus direitos e deveres. Nesse contexto, o afeto é um componente imprescindível que deve pautar a relação mestreaprendiz, juntamente com o respeito, a admiração e a amizade. Nos textos que produzimos, nos programas que criamos, nos cursos que aplicamos na rede, nas teleconferências, nas videoconferências, nas palestras, encontros, fóruns e congressos que promovemos, insistimos na necessidade de o professor se esforçar ao máximo para olhar o estudante como um indivíduo único. Uma pessoa que, assim como ele – educador –, também possui histórias, problemas, sonhos, desejos e ideais, com a diferença de que está no início de sua vida, no começo de sua caminhada rumo ao futuro.
Band: E a capacitação dos professores? Como está sendo feito esse trabalho e qual tem sido o retorno? C: Dentre nossos “mandamentos” para a educação, podemos destacar uma de nossas prioridades, que é o trabalho de capacitação contínuo dos 250 mil educadores da rede. Cremos que o professor é a espinha dorsal do processo ensinoaprendizagem. Portanto, é nosso
dever melhorar suas condições de trabalho e oferecer aos mestres todo suporte necessário para que se aprimorem. Dentre os temas abordados nas capacitações, estão Educação Inclusiva, Educação Indígena, Educação Artística,
Educação Digital, Educação Afetiva e Educação Tecnológica (uso da TV em sala de aula, por exemplo).
Band: Qual sua opinião sobre os CEUs da Marta Suplicy? O senhor pode comparar o investimento e a manutenção entre uma escola da rede estadual e uma unidade do CEU? C: Penso que os investimentos em educação são essenciais, desde que sejam bem planejados e distribuídos. No caso dos CEUs, o que vemos é uma inversão do conceito que adotamos no Estado, que é propiciar uma educação de excelência para todas as escolas da rede, independentemente do local onde funcionam e das condições financeiras da população do seu entorno. Queremos a igualdade da qualidade. Considero inadequado privilegiar alguns alunos em detrimento de outros. Não entendo como é possível escolher uma determinada escola e transformá-la num pólo de excelência ao mesmo tempo em que, a poucos metros dali, outras crianças tenham de se contentar com um colégio cuja infraestrutura é infinitamente inferior à dos CEUs. Como explicar essa diferença para as crianças? Na minha opinião, a prefeita poderia utilizar as verbas destinadas aos CEUs para melhorar os serviços prestados por todas as escolas da rede municipal e para a construção de novas escolas de Educação Infantil. É uma verdadeira tragédia que crianças de 4 anos fiquem fora da escola nessa que é uma fase tão rica e propícia ao aprendizado.
Band: Normalmente as escolas adotam exemplares que serão usados no vestibular, mas que algumas vezes ainda não são próprios para determinada fase do desenvolvimento. Por isso, não é raro que algumas crianças peguem “birra” de determinado autor e se neguem a lê-lo futuramente. Há uma solução para isso? C: Os professores têm de ter cuidado na seleção das obras indicadas aos alunos. Os textos, sua importância, seu contexto histórico, seu impacto, sua linguagem, a mensagem que trazem em sua síntese, a dinâmica de seus personagens, seu enredo... Tudo deve ser avaliado, discutido, debatido entre professores e coordenadores. Os alunos têm de ser previamente preparados para receber as informações contidas nos livros. Têm de ter condições para assimilálas, discuti-las, dissertar sobre elas. A escola não pode cobrar do aluno o entendimento de uma obra sobre a qual ainda não tem maturidade para compreender. Em muitos casos, isso pode representar a gota d’água para um estudante que já não tem uma predisposição natural para a leitura ou que não tenha sido devidamente estimulado para ler.
Band: São Paulo acaba de completar 450 anos. Que presente o sr. gostaria de dar à cidade e como espera que esteja a educação nos próximos anos? C: A Educação de qualidade é, na minha opinião, o melhor presente não apenas para a cidade de São Paulo, mas para todo o país. Estamos convictos de que o bom andamento do processo ensinoaprendizagem é a chave para o desenvolvimento de uma nação verdadeiramente soberana. Uma nação capaz de enfrentar os desafios do século XXI com soluções criativas, originais, fundamentadas no progresso equilibrado e nos ideais de justiça, igualdade e fraternidade. E por acreditarmos na importância da educação para a construção de um futuro melhor, temos trabalhado muito para que possamos resgatar, primeiramente, o orgulho dos professores em relação ao exercício do magistério. Esse é, a nosso ver, o passo mais importante para que, num curto espaço de tempo, a educação do Estado de São Paulo seja um referencial não só para o Brasil, mas para o mundo.
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