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Eu respeito muito alguns dos meus palpites que surgem de uma sensação tão rápida e inexplicável que me tornam prisioneira dessa percepção. A intuição é como uma mensagem que vem do fundo do ser para o intelecto sugerindo que tomemos uma determinada decisão, que procuremos um caminho alternativo, ou adivinhando qual será o sexo daquele bebê. Mas, quantas vezes nos arrependemos, amargamente, de termos seguido, ou não, a nossa intuição!
Da ciência para o cotidiano, sei que essa sensação automática, que vem como uma grande verdade, rápida e sem esforço, muitas vezes está errada. O pensamento pós-modernista da Nova Era diz que, “enterrado no fundo de cada um de nós, existe uma consciência instintiva que nos proporciona o mais confiável guia para sabermos se nossas ações estão voltadas para o interesse comum da vida que existe no nosso planeta. Precisamos usar mais o bom senso que emana dos nossos corações”. Escritores, gurus, conselheiros oferecem todo tipo de fórmula para desenvolver o sexto sentido, a sabedoria interior, a percepção do subconsciente! Livros nos ensinam as maneiras de conseguir curas, de aumentar a capacidade de aprendizagem, atingir a espiritualidade, fazer grandes investimentos, gerenciar espetacularmente. Não é fácil lidar com essa nova indústria.
Hoje a ciência cognitiva revela que o pensamento ocorre no segundo plano de nossas mentes. Estudos sobre processamento automático, memória implícita, funcionamento do cérebro direito, emoções instantâneas, comunicação não verbal e criatividade revelam a capacidade intuitiva. O pensamento, a memória e o comportamento operam em dois níveis: o consciente/deliberado e o inconsciente/automático. É o processamento duplo, dizem os estudiosos. Para exemplificar é só pensar na maneira como nos comunicamos: as palavras fluem numa organização sintática certa enquanto expressamos as idéias sem esforço. São dois níveis de atividade cerebral. Isso vem nos mostrar que temos dois tipos de mente: uma para a percepção imediata e outra para todo o resto!
Existe uma sabedoria biológica para expressar a ligação entre a percepção que temos e a resposta que vamos dar. Quando nossos ancestrais encontravam um estranho na floresta tinham que decidir instantaneamente se era um amigo ou inimigo. Aqueles que faziam uma leitura rápida e acurada tinham mais chance de sobreviver e deixar descendentes, o que explica o porquê das pessoas hoje serem capazes de distinguir só com um olhar as expressões de raiva, tristeza, medo, prazer, etc. É graças a essa sensibilidade que nos conduz dos olhos para os centros de controle emocional do cérebro que reagimos de forma emocional, antes de termos tempo de fazer uma interpretação racional do que está acontecendo. Ou seja, primeiro sentimos, depois o cérebro interpreta. No mato, pulamos ao som de folhas se movendo, só depois o cérebro vai nos dizer se é algo perigoso ou só o vento.
Sem dúvida a inteligência humana pertence à lógica, e a compreensão à consciência. Podemos perceber o que
está acontecendo, mas até entendermos é uma outra história.
Cientistas têm debatido se a intuição é mesmo mais apurada nas mulheres como se apregoa. É verdade que alguns testes de personalidade mostram que os homens chegam a um escore de 60% para a medida de “objetividade” (as decisões são tomadas baseadas na lógica) e as mulheres têm 90% para “sensibilidade” (as decisões são subjetivas, baseadas no que estão sentindo). É verdade, a intuição faz parte do processo de tomada de decisão. Mas parte dessa verdade é que tambem acontecem muitos erros. Quando acertamos, nos sentimos tão gratificados que é essa imagem de sucesso que retemos em nossas mentes. Todas as outras intuições que não se confirmaram são simplesmente descartadas de nossa memória, deixando a impressão de muito mais acertos do que erros.
Assisti a um documentário sobre acidentes graves e fiquei impressionada com um deles ocorrido na Suíça. Em julho de 2002, o sistema de computador automático de um avião russo instruiu o piloto para descer porque outra nave estava se aproximando na mesma rota. Ao mesmo tempo, o controlador de tráfego aéreo suíço, ao ter seu sistema fora do ar, resolveu – baseado no seu próprio julgamento – instruir o piloto a subir. Diante das mensagens conflitivas, o piloto preferiu confiar na intuição do colega controlador. O resultado trágico foi a colisão dos dois aviões, matando todos a bordo.
A história da ciência mostra inúmeras situações de desafio à intuição humana. Para nossos ancestrais, o Sol girava ao redor da Terra e ninguém podia afirmar o contrário. Foi necessária a ciência de Galileu para provar que estavam completamente errados. A psicologia também está repleta de exemplos do quanto nos enganamos. Mesmo as pessoas mais inteligentes fazem previsões que resultam em nada: técnicos, atletas, investidores, jogadores, “sensitivos” falham terrivelmente em muitas de suas previsões. Basta ler depois de algum tempo as previsões que foram feitas para o próximo ano e damos boas risadas. É chocante nossa vulnerabilidade ao interpretar a realidade, formar falsas memórias e ainda imaginar como vamos nos sentir. Nossa intuição erra.
Estudos recentes sugerem, por exemplo, que as pessoas calculam muito mal a durabilidade e intensidade de suas emoções depois de uma desilusão amorosa, da perda de uma eleição, de ganhar um jogo ou de ser insultada. É o que diz o psicólogo de Harvard, Daniel Gilbert, que fez uma pesquisa sobre a duração dos nossos sentimentos diante de um acontecimento importante. O resultado mostra que na verdade a expectativa de uma catástrofe emocional na maioria das vezes não se confirma e conseguimos superar de forma satisfatória a experiência dolorosa. É muito comum pacientes afirmarem que não conseguirão lidar com uma determinada situação se de fato ocorrer e, quando ela acontece, eles se supreendem ao suportar e até superar com menos
sofrimento e em menos tempo do que imaginavam.
Isso acontece porque as pessoas subestimam a velocidade e o poder do nosso sistema imunológico psíquico, que nos leva à cura emocional. Esse sistema inclui estratégias de racionalização (explicar o porquê), diminuição da gravidade ou da importância, possibilidade de perdoar e até de negar o fato. Quando não ativamos esse recurso, corremos o risco de acomodar e aceitar doenças, desilusões e fracassos com mais facilidade do que intuitivamente esperávamos.
A intuição é mais poderosa do que imaginamos. Alimenta nossa criatividade, o intelecto, a percepção do amor e ainda a espiritualidade. É fantástica, mas também perigosa. A ciência cognitiva procura fortificar a intuição visando afiar nossa capacidade de pensar, de deduzir, analisar e aprofundar nosso potencial de sabedoria. Cientistas notam que funciona para algumas áreas, mas requer restrições em outras. Desde os esportes, negócios e relacionamentos até as questões espirituais, agora entendemos o quanto pode ser perigoso nos deixarmos levar somente pela intuição, desprezando o bom senso e a lógica. Por outro lado, com certeza seremos mais espertos, sensíveis e criativos se dermos ouvidos aos sussurros que surgem da nossa mente obscura.
Maria Clara S. Heise - Psicóloga Clínica – Psicoterapeuta
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