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 José Mindlin
Uma Vida Entre Livros
Aos 89 anos, dotado de inteligência e simpatia peculiares, o bibliófilo José Mindlin mantém religiosamente o hábito da leitura. Em sua casa, no Brooklin, ele guarda mais de 30 mil títulos de livros. Alguns são edições raras, primeiras impressões, como os ensaios de Montaigne, de 1588; outros são recheados de dedicatórias, como a de Carlos Drummond de Andrade: “Caro Mindlin, você me trouxe este testemunho da minha mocidade, mas por que não me trouxe a própria mocidade?”.
Mindlin, filho de imigrantes russos, começou a ler cedo e não parou mais. Trabalhou em uma redação de jornal aos 15 anos, formou-se em Direito pela Faculdade do Largo São Francisco e, sempre que pôde, viajou o mundo em busca de descobertas literárias.
Amigo pessoal de diversos escritores, ele chegou a se envolver na edição de algumas obras. Escreveu também suas memórias, em 1996, em “A Vida entre Livros – Reencontros com o Tempo”, da Edusp/Companhia das Letras.
Com fôlego que parece não ter fim, Mindlin ainda encontra tempo para se dedicar à botânica – seu jardim é repleto de orquídeas e lírios – e conversar com gerações mais jovens, na tentativa de “inocular o vírus da leitura”. Foi neste clima que ele recebeu a reportagem do Band. Confira a entrevista:

Band - Em seu livro o sr. cita Thomas Mann dizendo que deveria ser proibida a leitura de bons livros, porque existem os ótimos. Então eu queria que o sr. desse uma dica para os estudantes sobre como eles podem discernir esses ótimos livros, sem ficar restrito aos clássicos?
José Mindlin - Bem, no próprio livro eu digo que essa idéia é inaplicável porque não existe um critério rigoroso para determinar quais são os livros excelentes, quais são os bons, quais são os regulares. Eu comecei a ler bastante cedo e a vida inteira continuei lendo. Acho que a leitura é uma das melhores coisas que a gente tem na vida, mas tem de ser num campo de liberdade intelectual – cada um resolve o que acha melhor. O importante é adquirir o hábito da leitura, não importa com quais livros, porque, depois de o hábito estar enraizado, vem a seletividade por si mesma. E cada um vai escolher se gosta de clássicos, de romances policiais – depende da vontade de cada um. Não se pode dizer “Você tem de ler determinados livros”. O máximo que se pode dizer é: “Eu achei esse livro muito bom e acho que você teria prazer em lê-lo” ou então “Eu li esse livro e achei que a leitura é uma perda de tempo, mas não é pecado gostar”. Não pode haver um preconceito de ler só um determinado tipo de livro. Para dar um exemplo extremo, uma pessoa pode gostar de ler Os Sermões do Padre Vieira e de repente interromper essa leitura para pegar um livro da Agatha Christie. Não vejo nada de mau nisso. O importante é adquirir o hábito da leitura e ir apurando por si mesmo a escolha do que ler.

B - No início as pessoas reclamam da falta de tempo para ler; no entanto, elas ficam diante da TV durante bastante tempo. Como criar o hábito de ler?
Mindlin- Eu diria que essa alegação é muito generalizada, não só para a leitura. As pessoas dizem que não têm tempo para fazer isto ou aquilo. O tempo também se aprende a regular. Eu até diria que quanto mais ocupada é a pessoa, mais coisas ela consegue fazer. Se eu tenho uma série de compromissos cancelados, por exemplo, fico meio desorientado com o que fazer nesse tempo. A minha leitura é a soma desses pequenos períodos – eu ando sempre com um livro na mão e aproveito todo tempo para ler. Com isso, dá para a gente ler mais do que imagina. Exige apenas um certo esforço de concentração, mas isso é o mínimo que se deve fazer quando se lê. Para ver televisão, nem muita atenção é necessária. A pessoa recebe o prato feito e nem tem tempo de refletir. No livro a gente vai refletindo sobre o que está lendo, às vezes volta para um trecho anterior – a gente dita o ritmo da informação. As novas tecnologias são extraordinariamente suficientes para obter informações; se eu quero a citação de um livro que não possuo mas sei que está numa biblioteca em Tóquio, pela Internet eu consigo a transcrição daquele trecho. É um instrumento incomparável para a obtenção da informação. Agora, para a absorção da informação, você vai ao livro, ao texto impresso.

B - Tem algum estilo literário que atrai mais o sr., ou que o sr. acha mais interessante para quem está começando a ler?
Mindlin - Para quem começar a ler agora, não vou dar conselho, nem dizer o que deve ser feito, mas posso contar o que eu fiz: eu li autores brasileiros. Quem está começando pode ler, por exemplo, contos do Machado de Assis ou O Menino de Engenho, do Lins do Rego. Textos mais difíceis, creio, deve-se deixar para mais tarde, quando o hábito já for corrente. Tudo depende dos pais também, se eles lêem ou não – porque assim podem orientar a criança.

B - Quando começou seu interesse pela leitura? E por exemplares raros?
Mindlin - O Brasil era muito diferente na minha infância, não tinha tantas opções. Eu tive a chance de estudar francês, que ficou sendo minha segunda língua. Primeiro, claro, a literatura infantil. Eu era leitor do Tico-tico, que formou diversas gerações. Havia os livros da Condessa de Ségur. Quando Monteiro Lobato surgiu, eu já era mais crescido. Então eu comecei a freqüentar sebos, o que também é um hábito muito salutar, porque nos põe em contato com coisas de outras épocas. E já aos 13 anos meu interesse por edições antigas começou, quando vi uma edição francesa impressa em Coimbra em 1740, se não me engano, e fiquei fascinado. Mais tarde aprendi que a idade do livro tem um significado muito relativo. Há muito livro antigo que não vale nada, e muito livro moderno que é excelente. Aos 15 anos lembro que comprei um livro de poesias do Machado de Assis, com dedicatória autógrafa dele. Essas coisas são apaixonantes e vão criando o requinte da bibliofilia. Aprendi o valor das primeiras edições, mas aprendi também que em alguns casos a primeira edição pode não ser a mais importante, como em O Guarani, de José de Alencar. E o gosto vai assim se tornando uma compulsão. Eu brinco dizendo que no meu amor aos livros há um conteúdo patológico, mas é uma patologia que faz sentir bem. E tem outra particularidade importante: é incurável. Eu procuro, nos muitos contatos que tenho com a mocidade, inocular o vírus do amor aos livros, porque uma vez inoculado está resolvido – a pessoa não se livra mais.

B - Se o sr. tivesse de escolher o livro da sua vida, qual seria?
Mindlin - A literatura é tão vasta e, como eu leio em algumas línguas, a escolha é ainda mais complexa. Mas em literatura brasileira há dois livros que eu considero que poderiam ser os livros da vida de qualquer um: as Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Machado pode ser lido mais cedo; Rosa é uma linguagem que a gente tem de penetrar – mas depois que penetrou não larga mais, lê, relê, reabre a toda hora.

B - Atualmente quantos livros o sr. tem?
Mindlin - Eu tenho quase tudo catalogado, mas ainda falta alguma coisa. Estamos com mais de 30 mil títulos. O número de volumes não sei dizer. A parte brasileira, mais ou menos a metade, vai para a Universidade de São Paulo.

B - O sr. fica frustrado por não poder ler todos os livros?
Mindlin - Não, eu aceito a vida como ela é. Eu costumava brincar dizendo que queria viver 300 anos para poder ler mais 25 mil ou 30 mil volumes, mas, primeiro, não achei a receita e, depois, seria inútil porque nesses 300 anos surgiriam outros livros que não daria para eu ler. A gente tem de aproveitar a vida enquanto está
no planeta.

B - Qual o livro mais raro que o sr. tem hoje?
Mindlin - Também é difícil dizer. Eu gosto dos livros, além do conteúdo, pela tipografia, pela ilustração, pela diagramação – um livro como um objeto de arte. Então eu procurei ter um certo número de obras que mostram o que foi o livro desde o século 15 até os nossos dias. O livro começou em 1455 quando Gutenberg inventou os tipos móveis, que permitiram a imprensa. Eu tenho na biblioteca, por exemplo, a primeira edição ilustrada dos poemas de Petrarca, de 1488. Curiosamente, o livro não mudou muito nesses mais de 500 anos.

B - Cultura e Opulência do Brasil, de Antonil, o sr. já conseguiu?
Mindlin - Ainda não. Esse é um sonho antigo meu, um livro extremamente raro, do qual só se conhecem cinco ou seis exemplares que atingiram preços no mercado absolutamente fora do alcance de uma pessoa. Há livros que só podem ser adquiridos por grandes bibliotecas públicas, universitárias. Mas isso não prejudica o sonho. A garimpagem dos livros é talvez até um prazer maior do que o de ter os livros. Quando a gente procura um livro durante anos e de repente dá de encontro com ele, o coração bate mais forte; quando ele está na estante, a gente pega, tem prazer, mas o coração não bate mais forte. Hoje tenho menos tempo de freqüentar sebos em São Paulo, mas sempre que viajo a primeira coisa que faço é procurar nas páginas amarelas os endereços de livrarias e sebos e vou tentar encontrar títulos brasileiros, especialmente.

B - Dos novos escritores brasileiros, em quem o sr. apostaria? Milton Hatoum, por exemplo?
Mindlin - Milton Hatoum é certamente um dos grandes escritores e ainda se pode esperar muita coisa da obra dele. Mas é difícil mencionar, porque a gente pode esquecer nomes importantes. E há os escritores do século passado, os nordestinos, como Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz. No anterior, Machado, Aluisio Azevedo, José de Alencar. É um mundo que não tem fim, e isso faz parte do prazer da leitura e da formação da biblioteca.

B - De quais livros os sr. participou da edição?
Mindlin - Eu fiz a reimpressão da Revista de Antropofagia, que é um documento básico do modernismo, e outras coisas, como o Verde de Cataguases; e também a homenagem a Bandeira quando ele fez 50 anos, com artigos dos melhores espíritos do tempo, numa tiragem de 200 exemplares que se tornou raridade no ano em que foi publicada. Então fiz uma reimpressão fac-similar que se tornou acessível aos estudiosos de literatura. Eu tenho uma filha, Diana, que é arquiteta e entende de arte gráfica e sempre fez os livros dos quais promovi a publicação.

B - Como o sr. avalia o papel da crítica literária?
Mindlin - O papel da crítica é importante, mas hoje existe mais resenha do que crítica, uma apreciação, uma discussão sobre os rumos adotados pelo escritos, as questões do estilo, e isto está faltando. Mas é um papel auxiliar; não é a crítica que determina propriamente se um livro é bom ou não, porque não existem critérios rígidos, a não ser que a obra seja obviamente má ou obviamente ótima. Nós ainda temos a figura do grande crítico literário brasileiro, que é Antonio Candido, que abre caminhos para os leitores, dá novas idéias e merece ser lido.
B - O que o sr. acha de iniciativas como a do “atentado poético”, de 11 de setembro, quando as pessoas foram incentivadas a abandonar livros em locais públicos para que outras pessoas os achassem e lessem?
Mindlin - Eu achei muito interessante, mas a gente fica sem saber o que aconteceu com o livro que deixou em algum lugar. Mas esse mistério também é atraente. Na formação de uma biblioteca e na leitura, o acaso também tem um papel importante – nem tudo
é dirigido.

B - Que livro o sr. deixaria?
Mindlin - Eu deixei uma revista do modernismo, a Revista do Salão de Maio do Flávio de Carvalho, com diversos artigos sobre o movimento. Também fui eu que fiz a edição fac-similar. Onde o exemplar foi parar não sei, porque deixei num banco de jardim.

B - O que o sr. acha desse crescimento das feiras literárias, como as de Paraty, Ribeirão Preto, etc?
Mindlin - Eu acho muito importante para despertar o interesse e dar acesso a muita gente que não tem hábito de ir às livrarias. É fundamental; ajuda a formar leitores.

B - É difícil ser escritor no Brasil: são poucos que conseguem viver apenas da literatura. Por falar nisso, a Fundação Vitae vai acabar mesmo?
Mindlin - Eu sou membro do conselho da Vitae, que existe há 18 anos no Brasil. Mas o capital foi se esgotando e ainda deve durar mais uns quatro anos. Mas não é impossível que a Vitae consiga parcerias para continuar seu trabalho.
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