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A verdadeira face
A nossa face é um extraordinário meio de comunicação, capaz de demonstrar claramente nossas emoções ou disfarçá-las em questão de fração de segundos! Trata-se, portanto, de um equipamento de que dispomos tanto para revelar o mais profundo dos nossos segredos quanto para enganar a quem quisermos.
Hoje os cientistas estão começando a entender as contradições que envolvem nossas expressões faciais e a decifrar a importância da dissimulação para a convivência social. Uma espécie tão social como a nossa, dependente da capacidade de se comunicar, é capaz de usá-la, constantemente, para enviar mensagens confusas e falsas.
A face de uma pessoa é uma valiosa indicadora de pistas para nos ajudar a perceber o que está por trás das interações entre as pessoas.
Charles Darwin afirma em seu livro de 1872, “A Expressão das Emoções nos Homens e Animais”, que a habilidade de sinalizar sentimentos, necessidades e desejos é fundamental para a sobrevivência e, portanto, baseada biologicamente na evolução. Como seria se os bebês não contorcessem seus rostos quando estão com fome ou algum desconforto? Ou se os animais não arreganhassem seus dentes em sinal de ameaça? E se nós não fôssemos capazes de captar rapidamente esses sinais e levássemos algum tempo para decifrar a mensagem?
Pesquisadores identificaram seis expressões faciais básicas e universais que são conectadas ao nosso cérebro de forma que possamos tanto emiti-las quanto captá-las: raiva, medo, tristeza, surpresa, felicidade e nojo. Se mostrarmos uma foto de um motorista furioso no trânsito para um monge do Tibet ou para um morador do sertão nordestino, eles não terão nenhuma dificuldade em traduzir a mensagem de raiva.
Uma das expressões que não constam da lista, mas deveria estar, é a de vergonha. Ela reflete uma das emoções que menos gostamos de mostrar. Quem não abomina ficar com o rosto vermelho, escaldante, com a sensação de ser um bobo?
E a reação vem de forma involuntária, além do nosso controle. Quando ficamos envergonhados, as mãos tendem a cobrir parcialmente o rosto, o olhar cai para baixo, tentamos encolher, parecer menores. Essas atitudes não são só nossas.
Os chimpanzés e alguns outros tipos de macacos fazem o mesmo. São comportamentos que escondem hostilidade, oferecem uma desculpa tática, buscam simpatia, o que se torna fundamental para desarmar psicologicamente o outro: quando vemos um rosto raivoso nos encarando, temos um aumento da resposta fisiológica com aceleração do pulso, do hormônio do stress, sinais de medo e de preparação para a defesa.
Em julgamentos, os jurados têm tendência a ser mais condescendentes com réus que mostram sinais de arrependimento e vergonha do que com aqueles que estampam cinismo e arrogância no olhar.
Doenças físicas ou mentais podem interferir na habilidade de se expressar facialmente, provocando conseqüências bem desagradáveis. Pessoas que sofrem da doença de Parkinson, por exemplo, são comumente percebidas como chatas e esquisitas porque suas faces se tornam rígidas e imóveis devido à doença. A depressão também provoca uma expressão de vazio, de distanciamento que afasta os outros. Quando a mãe se deprime e deixa de sorrir para seu bebê, vai desencadear uma sensação de estranheza, de frio emocional que pode afetar seu desenvolvimento.
O mais intrigante, menos conhecido com relação a esse assunto, é a nossa capacidade de interpretar a expressão facial.
Os cientistas afirmam que ainda somos muito fracos na percepção das verdadeiras emoções que um rosto pode estar mostrando.
No primeiro instante, pode parecer que interpretamos corretamente o sinal emitido pelo rosto do outro.
Mas quando trazemos as nossas emoções, memórias, contextos e julgamentos, percebemos o grau da dificuldade de captar a real mensagem que o outro tentava nos transmitir.
O psicólogo Paul Ekman, da Universidade da Califórnia, conduz um estudo muito sério sobre o assunto de micro expressões.
Os interrogatórios de suspeitos de homicídios são gravados em videotape e exaustivamente observados em câmara lenta para que sejam detectadas as micro expressões que vão revelar a mentira. Os resultados são tão animadores que ele está treinando a polícia da Califórnia na condução e interpretação dos interrogatórios.
Em todas as culturas o sorriso é a expressão que todos percebem de longe como sinal de amistosidade. Somos facilmente enganados e seduzidos por um sorriso bonito. Experimentos mostram que as pessoas sorridentes são sempre as primeiras escolhidas como sendo as mais honestas e simpáticas.
O sorriso é um controlador formidável para a avaliação que se faz de nós. Outra expressão muito bem aceita, que não levanta suspeitas, é a “carinha de bebê”. Tendemos a interpretar essa face como sendo a de pessoas ingênuas, bondosas e confiáveis. O quanto podemos nos enganar!
Mas existem pistas para nos ajudar a detectar a falsidade. Quem está mentindo tende a manter a expressão simulada por mais tempo. Se observarmos com cuidado, percebemos que o sorriso falso tem a mesma aparência fixa de um sorriso de fotografia. Na verdade, usamos músculos diferentes da face para expressar uma emoção verdadeira ou para forjá-la. É por isso que muitas vezes temos a impressão de que a expressão é falsa, algo nos causa estranheza!
Ekman sugere que prestemos muita atenção aos olhos, boca, sobrancelhas, movimentos de franzir o nariz e ainda ao tom de voz e postura corporal. Um olhar fixo pode significar muito, um sorriso sedutor e um cruzar de pernas, mais ainda!
A maioria de nós não capta as mentiras, em parte porque sabemos que as pessoas nos enganam mesmo. Na verdade, parece que a vida segue mais tranqüila se, até certo ponto, ignorarmos certas pistas que são sugeridas. É mais fácil pensar que todos gostaram da piada que contamos, ou que os políticos vão cumprir as promessas feitas durante a campanha eleitoral. Aliás, o horário eleitoral na TV pode nos proporcionar um sensacional exercício para desenvolvermos nossa capacidade de captar, através das miniexpressões, as grandes mentiras que estão sendo faladas.
Depois de tudo que foi dito, uma questão que me intriga é a de como a proliferação da tecnologia em comunicação, que provoca considerável diminuição do contato face a face, vai influenciar e alterar a interação entre as pessoas. Entrar em contato hoje é mais fácil, freqüente e imediato, sem a necessidade de nos vermos.
Como ficarão nossas expressões faciais se não precisarmos mais reagir às dos outros? Qual será a face humana do futuro?
Certamente os computadores estarão cada vez mais equipados para escanear toda miniexpressão ou qualquer micro movimento que fizermos e será praticamente impossível esconder a verdadeira face. :-) ou :-( ?

Maria Clara S. Heise – Psicóloga Clínica – Psicoterapeuta
Rua Gen. Mena Barreto, 498,
Jardim Paulista.
Cep. 01433-010. Tel. 38870933.

  
 


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