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Para o congressista Arnaldo Madeira, administração Fernando Henrique Cardoso deixa marcas fortes.
Como líder do governo Fernando Henrique Cardoso na Câmara dos Deputados, Arnaldo Madeira é um dos protagonistas do projeto do PSDB para o país. Nessa condição, ele tem desempenhado um papel importante nestas eleições, uma vez que o grande marco de referência nos debates tem sido exatamente as políticas econômicas e sociais implementadas nos últimos anos pelo presidente da República.
Foram oito anos marcados por uma gestão que apresentou, pela primeira vez em nossa história recente, consistência teórica e disciplina na sua implantação. Não ocorreu, como foi comum em outros governos, uma definição improvisada dos principais objetivos e uma administração errática dos instrumentos de gestão.
Temos hoje, concorde-se ou não com ele, um projeto estratégico muito claro para o país: estabilidade monetária, equilíbrio fiscal e economia aberta ao comércio internacional e aos fluxos de investimentos externos, além de total liberdade dos mercados. Esses seriam os principais pressupostos que criariam as condições necessárias para que a economia cresça de forma sustentada no próximo governo.
Para falar sobre as políticas econômicas e sociais _em especial as de educação_ e sobre o atual momento político brasileiro, Arnaldo Madeira deu um tempo em sua campanha e recebeu a reportagem do Band. Leia a seguir trechos da entrevista.
Band – O sr. sempre foi um deputado ligado à educação. Quais foram os avanços conseguidos nessa área nos últimos oito anos?
Arnaldo Madeira - Primeiro tivemos a universalização do ensino fundamental. Hoje, a criança de 7 a 14 anos fora da escola é a exceção. No último dado oficial do Ministério da Educação, estamos com 97% das crianças dessa faixa etária na escola. Isso é um ganho importantíssimo. Tivemos um aumento no número de crianças de 5 e 6 anos na pré-escola, um aumento da quantidade de jovens no ensino médio e das matrículas nas universidades e a quadruplicação do número de alunos de doutorado e mestrado nesses oito anos. No caso do ensino fundamental, a criação do FUNDEF foi decisiva para melhorar as condições de trabalho e de remuneração dos professores. Conseguimos colocar na escola exatamente as pessoas mais pobres, que eram as que estavam fora da escola no ensino fundamental. Eu considero isso o maior programa de inclusão social. Eu vejo que, num prazo de 10 a 15 anos, nós poderemos estar com o ensino inteiramente universalizado, da pré-escola ao ensino médio.
Band – Como o sr. vê o debate acerca do sistema de progressão continuada?
Madeira – Essa polêmica envolve muito preconceito. As pessoas falam muito que as crianças são promovidas sem saber ler nem escrever, sem aprender direito, e falam que querem a repetência. Na verdade, isso é um equívoco. As pessoas querem que as crianças aprendam, não que repitam de ano. Se repetência fosse solução, o Brasil seria campeão em educação. O Brasil teve taxas de repetência, historicamente, de 24%, 25%, o que não ocorre em lugar nenhum do mundo. Introduziu-se esse conceito de repetência como uma forma de autoridade do professor e de levar o aluno a estudar, quando, na verdade, a gente percebe que a seqüência de repetências acaba levando o aluno à evasão escolar. Desestimula, há uma queda da auto-estima. Agora, a minha experiência de debater esse tema é que, quando você coloca as coisas de maneira adequada, sobre qual é a preocupação com a criança ficar na escola, com a dedicação ao aprendizado do aluno, as pessoas entendem. Então, acho que esse é um tema que tem de ser muito debatido, para ser esclarecido. Isso passa mais pela capacitação do professor. Nós estamos vivendo um processo de busca de qualificação do professor. Aqui no Estado está sendo feito um esforço muito grande, abrindo cursos universitários para os professores que não têm, fazendo cursos de capacitação.
Band – Quais os desafios do próximo governo para a educação?
Madeira – São a universalização da pré-escola e do ensino médio e o avanço na qualidade. Treinamento, capacitação dos professores, criação de condições mais adequadas nas salas de aula e nas escolas, com a colocação de computadores para aplicação da tecnologia na educação.
Band – Como líder do presidente Fernando Henrique Cardoso, em que áreas o sr. considera que o governo deverá ser lembrado e qual o seu papel nesse governo?
Madeira – Desde o final do primeiro mandato do presidente, meu papel foi o de articular as votações e, portanto, as relações entre o Parlamento e o Executivo, seja o presidente da República, seja os diferentes ministérios. Eu acho que o governo Fernando Henrique deixa uma marca muito forte. Primeiro, ele deixou a marca da estabilidade da moeda, que não é pouco. Acho que o governo tem uma marca muito forte também na parte social, com ganhos hoje conhecidos, na educação, na saúde, na redução da taxa de mortalidade infantil, no aumento da esperança de vida ao nascer. Nós poderíamos falar das ações de assistência social, que foram muito fortes, do Comunidade Solidária, feito basicamente com a participação da sociedade civil, sem recursos públicos. Então, tem uma marca na estabilidade, uma marca social muito forte e tem a introdução de alguns conceitos que permitiram mudanças muito grandes na sociedade brasileira, entre eles, o conceito de eficiência, de busca de qualidade e de produtividade, que permitiram ao Brasil dar saltos muito grandes em alguns segmentos. Eu destacaria os avanços que tivemos na agricultura, os ganhos em áreas industriais, como o setor têxtil, siderúrgico, de produção de aviões. Em algumas dessas áreas, nos tornamos um país altamente competitivo. Do ponto de vista do Estado, deixamos uma marca muito forte, que foi esse conceito de responsabilidade fiscal, em que o Estado não pode gastar mais do que arrecada. Isso não existia na sociedade brasileira e hoje está perfeitamente perceptível pelas pessoas. Além do papel do Brasil no cenário internacional. A presença do Brasil nunca foi tão forte quanto com o presidente Fernando Henrique. Ele deixa para o país a exigência de um outro tipo de qualificação para o presidente da República.
Band – Qual a importância de eleger José Serra?
Madeira – O Serra é a pessoa mais qualificada para a Presidência da República. Ele tem maior experiência pública. Em todos os cargos que ocupou, se saiu muito bem, se revelou um administrador eficientíssimo. Foi secretário aqui de Planejamento do governo Montoro e fez uma gestão que se destacou pelo controle das contas públicas, por recuperar o Estado, que estava quebrado. Como ministro da Saúde, ele é reconhecido internacionalmente. Sua briga pelos medicamentos genéricos, a luta pelo combate à Aids _o Brasil hoje exporta tecnologia no combate à Aids. Ele foi considerado o melhor ministro da Saúde do mundo. Então, ele é uma pessoa extremamente preparada, muito competente, com uma larga experiência como político, como parlamentar. Ele foi deputado por dois mandatos, foi senador. Como deputado, ele foi líder do PSDB na Câmara, de maneira que ele é, de longe, o mais qualificado para exercer o cargo de presidente da República, por sua experiência e por suas companhias. No fundo, ele segue o programa da Social-Democracia, com os ajustes que se fizeram necessários, mas sempre mantendo o rumo do país. Eu acho que o Brasil está numa situação hoje em que podemos ter um período de bonança muito grande, com taxas de crescimento de 4% a 5%. Evidentemente que nós dependemos do que acontece lá fora, o mundo é cada vez mais integrado, mas o fato é que, enquanto países vizinhos nossos estão com quedas violentas no Produto Interno Bruto, nós estamos com o nosso em crescimento, ainda que seja um crescimento baixo. Mas, comparativamente ao que está acontecendo na Europa, nos Estados Unidos e aqui com os nossos vizinhos, nós ainda estamos nos defendendo. E eu acho que o Serra é o nome indicado para dar continuidade a esse projeto e permitir que possamos usufruir dos benefícios de tudo o que foi feito com o crescimento nos próximos cinco ou dez anos.
Band – As atuais campanhas eleitorais estão muito focadas no marketing político. O marketing se tornou mais importante do que a militância partidária?
Madeira – Não. Aí o que existe é que você tem uma briga de comunicação na TV e no rádio. Essa briga tem de ser feita a partir do que são os candidatos na realidade. Você não consegue fazer um marketing que esconda o que é o candidato, que o transforme numa coisa diferente do que ele é. Na verdade, a campanha eleitoral hoje envolve, por um lado, a comunicação na mídia, e por outro, as estruturas partidárias distribuídas pelo país. É a conjugação das duas coisas que pode levar à vitória. Um bom programa político, ligado a uma boa comunicação e a uma estrutura partidária, essa militância que também resulta das alianças. A importância da nossa aliança com o PMDB está exatamente no fato de que o PSDB é forte onde o PMDB é fraco e vice-versa.
Band – O governador Mário Covas foi aluno e professor do Colégio Bandeirantes e sempre foi muito próximo ao sr. Qual foi o exemplo que ele deixou para a política em geral e para o sr. em particular?
Madeira – O Covas foi uma figura completa na política. Ele era um grande formulador, uma pessoa com uma capacidade analítica fantástica. Ele trabalhava com conceitos e, em cima disso, para cada momento político ele tinha análises muito preciosas. Simultaneamente, ele era um grande orador, que levava as platéias ao silêncio, ao respeito e à emoção. O melhor orador que eu vi na minha vida política. Ele foi uma pessoa de um comportamento ético impressionante, eu nunca conheci igual, em termos de postura de caráter, retidão, correção no trato da coisa pública. Uma pessoa que respeitava muito o próximo, um comportamento democrático total. Ele para mim foi a figura mais completa da política brasileira. Deixou a marca do predomínio do social na ação política.
O sociólogo, administrador de empresas e professor Arnaldo Madeira, que disputa o 3° mandato como deputado federal pelo PSDB. No início dos anos 80, atuou na administração municipal, quando Mário Covas foi prefeito e, posteriormente, presidiu a Câmara dos Vereadores de São Paulo.
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